Casa Brasil ENTRE O CURRAL E O ESPELHO.

 

O Tocantins tem uma relação curiosa com o próprio destino. É como aquele morador que reclama do telhado furado, mas insiste em chamar o mesmo pedreiro toda vez que chove. Não por falta de opção, mas por hábito.

Aqui, a política costuma funcionar como feira livre: escolhe-se pelo sorriso, pela conversa fácil, pelo jeito simples. Curraleiro, como se diz com certo carinho. Afinal, “é dos nossos”. E quando o assunto é passado, histórico ou biografia pública, o tocantinense muitas vezes prefere o atalho da memória curta. Pesquisa dá trabalho. Ídolo pronto é mais confortável.

O episódio recente do afastamento do governador envolvido em investigações e decisões judiciais relacionadas ao período mais sensível da nossa história recente, a pandemia, deveria ter servido como um espelho coletivo. Um momento raro de pausa. Uma chance de perguntar: é isso mesmo que aceitamos como normal?

Durante esse intervalo, o Estado foi conduzido por Laurez Moreira. Sem alarde. Sem espetáculo. Sem frases de efeito. Governou como quem administra uma casa grande: cuidando das contas, respeitando os ritos, mantendo a dignidade do cargo. Foi um governo de silêncio, porém eficiente e talvez por isso, tenha incomodado.

Mas eis que, por uma brecha daquelas que só a política brasileira produz com criatividade jurídica, o antigo mandatário retorna. Seus aliados festejam. Não porque desconheça os fatos, mas porque já se acostumou a eles. O desvio vira detalhe. A investigação vira perseguição. A prova vira “coisa de Brasília”.

No Tocantins, o problema raramente é o escândalo. O problema é quando ele deixa de escandalizar.

O famoso “rouba, mas é bom pra mim” aqui ganha sotaque, chapéu de palha e status de virtude. Como se honestidade fosse luxo. Como se seriedade fosse frescura. Como se governar corretamente fosse menos importante do que parecer próximo, simples, popular.

E é aí que mora a tragédia silenciosa. Porque enquanto se comemora o retorno do “meu camarada”, abre-se mão do correto. Troca-se o gestor pelo personagem. A ética pelo folclore. A biografia limpa pela popularidade ruidosa.

Laurez Moreira representa exatamente o oposto dessa lógica. Não é o homem da piada pronta. É o homem do histórico. Não é o político legal. É o gestor da estabilidade. Sua trajetória não depende de narrativas convenientes, mas de uma carreira construída sem atalhos, algo raro o suficiente para causar estranhamento.

Talvez o maior erro de Laurez tenha sido ser sério demais num Estado acostumado ao improviso moral.

A pergunta que fica não é sobre nomes. É sobre identidade.

Quem somos nós, afinal?
Um povo que exige honestidade ou que apenas tolera o erro quando ele vem embrulhado em carisma?
Um Estado que quer avançar ou que prefere repetir seus próprios vícios por medo de mudar?

O Tocantins não carece de líderes. Carece de escolha consciente.
E enquanto a política for decidida mais pelo afeto do que pela razão, continuaremos chamando de “normal” aquilo que, em qualquer outro lugar, seria inaceitável.

No fim, talvez o maior debate não seja quem governa.
Mas por que continuamos escolhendo da mesma forma. Avalie!

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